
Meus dois textos anteriores tratam de autores considerados cânones da literatura mundial.
Esse agora é diferente: se pensa sobre um crítico contemporâneo (Umberto Eco) e um diretor e roteirista super reconhecido hoje em dia(Quentin Tarantino).
Me perdoem caso existam algumas informações errada sobre os personagens dos quadrinhos, pois embora eu goste muito, as vezes me confundo....
Teorias sobre o processo de composição
São surpreendentes as conclusões e constatações a que se pode chegar quando se pensa em literatura com a visão dos escritores. Muitos mitos e impressões a respeito do processo de composição caem por terra quando se estudam ensaios e textos teóricos de escritores como Willian Wordsworth, Edgar Allan Poe, Samuel Taylor Coleridge ,T. S. Eliot, Umberto Eco e Machado de Assis.
Suas “revelações” a cerca do processo de escrita foram fundamentais para desmistificar o que foi cultivado ao longo de séculos da tradição literária - principalmente no romantismo - que mantinham elevada a figura do poeta, do artista. Ao entender o processo de composição, entende-se então que nada tem a ver com dons divinos ou inspiração, mas que o trabalho caminha passo a passo, até completar-se com a precisão e a seqüência rígida de um problema matemático (POE 1845:62).
Este artigo tem como objetivo fazer um recorte no que foi estudado e aprendido ao longo do estudo dos textos dos autores já citados. Pretende-se fazer uma análise dos filmes Kill Bill 1 e 2, especialmente o segundo volume, à luz das teorias de um desses autores - Umberto Eco - a cerca da composição. É importante dizer que não será aplicado somente o que foi dito por Umberto Eco (pois ele também dialoga com uma série de autores), mas o texto deste será o embasamento principal deste trabalho[1].
Sobre algumas funções da literatura – Umberto Eco
Muitos são os temas tratados nesse ensaio (sobre algumas funções da literatura) de Umberto Eco, e todos eles de importância sem par para os estudiosos de literatura. Seu texto começa tratando dos possíveis papéis que a literatura apresenta e dentre eles pode-se destacar o de não ter função nenhuma. O autor explica que um dos principais papéis desempenhados pela a literatura é o de trazer deleite, elevação espiritual, ampliação dos próprios conhecimentos, e, portanto, nada do que se pode chamar de “função prática”. Claro que após ter considerado isso, Eco apresenta alguns dos papéis “úteis” que a literatura desempenhou ao longo dos séculos, mas este não é o foco de estudo nesse trabalho.
Tendo esses papéis da literatura em mente, este artigo parte do pressuposto que o cinema é um tipo de arte que guarda profunda semelhança com a literatura devido ao fato de trazer entretenimento, mas não o associado ao jogging ou à prática de palavra cruzada (como diz Eco a respeito da literatura), mas constitui-se de um elemento artístico e passível de análise de forma que muito se assemelha à análise literária. Pode-se observar, analisar e criticar em uma produção cinematográfica elementos típicos da literatura como o espaço, o tempo, os personagens ou autor/diretor.
Além do que foi dito, em “Sobre algumas funções da literatura” há uma breve dissertação do quão importante é o respeito da liberdade de interpretação das obras literária, ou em suas palavras: “A leitura de obras literárias nos obriga a um exercício de fidelidade e respeito na liberdade de interpretação” (pg. 12), e comenta de uma “perigosa heresia crítica” de nossos dias que insiste em dizer que de um texto literário pode-se interpretar o que se queira, fazendo dele o que os nossos mais incontroláveis desejos nos sugerirem.
Eco defende outra visão da liberdade de interpretação. Admite que uma obra literária proponha muitos planos de leitura e que nos coloca diante de ambigüidades da linguagem e da vida. Mas, a revelia da própria vida, que com o passar do tempo nos mostram outras verdades que outrora não sabíamos (ele exemplifica o fato de a aparição de um documento novo ser o motivo para mudar toda a visão que tínhamos a respeito de um fato histórico), o texto literário é um ambiente hermético. Algumas verdades que ele propõe são incontestáveis e não permitem outro tipo de interpretação - como o fato de Sherlock Holmes ser solteiro, ou de Chapeuzinho Vermelho ter sido devorada pelo lobo -. Chega à conclusão que:
“... o mundo da literatura é tal que nos inspira a confiança de que algumas proposições não podem ser postas em dúvida; que ele nos oferece, portanto, um modelo, imaginário tanto quanto se quiser, de verdade.” (pg. 14).
Após isso, o autor faz a seguinte afirmação: “Os personagens migram” (pg. 15). Explica que muitos personagens saem do plano textual para um lugar no espaço que nos é muito difícil delimitar.
Qual é o local que permanece, portanto, um personagem no qual a sua característica principal atravessou os tempos, os gêneros – passou da literatura para o teatro, ou dos quadrinhos para o cinema, ou ainda da fábula ao balé -, e até se tornou adjetivo para a definição de traços da personalidade de um ser humano? (Eco diz que todos reconhecem quando alguém afirma ter um comportamento quixotesco, ou uma dúvida hamletiana).
Esses são, portanto, os pontos do artigo de Eco que serão úteis para a análise dos filmes (e da obra em geral) do diretor americano Quentin Tarantino, a saber: processo de criação oriundo de um trabalho árduo e consciente, liberdade (limitada) de interpretação e personagens que migram.
Tarantino
Quentin Tarantino[2] já foi alvo de interpretações variadas, pois apresenta uma produção cinematográfica sui generis que revolucionou a forma de abordar temas considerados “sem profundidade” pela crítica especializada, como violência e vingança de sangue.
Tarantino não aborda a violência pura e por si só, mas a mente do violento. Seus filmes são conhecidos por diálogos bastante elaborados, cronologia fragmentada e pela grande quantidade de sangue. Encontram-se neles influências do cinema oriental, filmes de faroeste, terror italiano, nouvelle vague francesa e do cinema britânico.
Pensando nas importantes teorias dos autores já citados a cerca do processo de composição literária, é possível pensar nos filmes de Tarantino como um bom exemplo do quanto a criação artística é resultado de muita transpiração (trabalho) ao invés de inspiração.
Selton Melo e Seu Jorge, em Tarantino’s mind[3]
São surpreendentes as conclusões e constatações a que se pode chegar quando se pensa em literatura com a visão dos escritores. Muitos mitos e impressões a respeito do processo de composição caem por terra quando se estudam ensaios e textos teóricos de escritores como Willian Wordsworth, Edgar Allan Poe, Samuel Taylor Coleridge ,T. S. Eliot, Umberto Eco e Machado de Assis.
Suas “revelações” a cerca do processo de escrita foram fundamentais para desmistificar o que foi cultivado ao longo de séculos da tradição literária - principalmente no romantismo - que mantinham elevada a figura do poeta, do artista. Ao entender o processo de composição, entende-se então que nada tem a ver com dons divinos ou inspiração, mas que o trabalho caminha passo a passo, até completar-se com a precisão e a seqüência rígida de um problema matemático (POE 1845:62).
Este artigo tem como objetivo fazer um recorte no que foi estudado e aprendido ao longo do estudo dos textos dos autores já citados. Pretende-se fazer uma análise dos filmes Kill Bill 1 e 2, especialmente o segundo volume, à luz das teorias de um desses autores - Umberto Eco - a cerca da composição. É importante dizer que não será aplicado somente o que foi dito por Umberto Eco (pois ele também dialoga com uma série de autores), mas o texto deste será o embasamento principal deste trabalho[1].
Sobre algumas funções da literatura – Umberto Eco
Muitos são os temas tratados nesse ensaio (sobre algumas funções da literatura) de Umberto Eco, e todos eles de importância sem par para os estudiosos de literatura. Seu texto começa tratando dos possíveis papéis que a literatura apresenta e dentre eles pode-se destacar o de não ter função nenhuma. O autor explica que um dos principais papéis desempenhados pela a literatura é o de trazer deleite, elevação espiritual, ampliação dos próprios conhecimentos, e, portanto, nada do que se pode chamar de “função prática”. Claro que após ter considerado isso, Eco apresenta alguns dos papéis “úteis” que a literatura desempenhou ao longo dos séculos, mas este não é o foco de estudo nesse trabalho.
Tendo esses papéis da literatura em mente, este artigo parte do pressuposto que o cinema é um tipo de arte que guarda profunda semelhança com a literatura devido ao fato de trazer entretenimento, mas não o associado ao jogging ou à prática de palavra cruzada (como diz Eco a respeito da literatura), mas constitui-se de um elemento artístico e passível de análise de forma que muito se assemelha à análise literária. Pode-se observar, analisar e criticar em uma produção cinematográfica elementos típicos da literatura como o espaço, o tempo, os personagens ou autor/diretor.
Além do que foi dito, em “Sobre algumas funções da literatura” há uma breve dissertação do quão importante é o respeito da liberdade de interpretação das obras literária, ou em suas palavras: “A leitura de obras literárias nos obriga a um exercício de fidelidade e respeito na liberdade de interpretação” (pg. 12), e comenta de uma “perigosa heresia crítica” de nossos dias que insiste em dizer que de um texto literário pode-se interpretar o que se queira, fazendo dele o que os nossos mais incontroláveis desejos nos sugerirem.
Eco defende outra visão da liberdade de interpretação. Admite que uma obra literária proponha muitos planos de leitura e que nos coloca diante de ambigüidades da linguagem e da vida. Mas, a revelia da própria vida, que com o passar do tempo nos mostram outras verdades que outrora não sabíamos (ele exemplifica o fato de a aparição de um documento novo ser o motivo para mudar toda a visão que tínhamos a respeito de um fato histórico), o texto literário é um ambiente hermético. Algumas verdades que ele propõe são incontestáveis e não permitem outro tipo de interpretação - como o fato de Sherlock Holmes ser solteiro, ou de Chapeuzinho Vermelho ter sido devorada pelo lobo -. Chega à conclusão que:
“... o mundo da literatura é tal que nos inspira a confiança de que algumas proposições não podem ser postas em dúvida; que ele nos oferece, portanto, um modelo, imaginário tanto quanto se quiser, de verdade.” (pg. 14).
Após isso, o autor faz a seguinte afirmação: “Os personagens migram” (pg. 15). Explica que muitos personagens saem do plano textual para um lugar no espaço que nos é muito difícil delimitar.
Qual é o local que permanece, portanto, um personagem no qual a sua característica principal atravessou os tempos, os gêneros – passou da literatura para o teatro, ou dos quadrinhos para o cinema, ou ainda da fábula ao balé -, e até se tornou adjetivo para a definição de traços da personalidade de um ser humano? (Eco diz que todos reconhecem quando alguém afirma ter um comportamento quixotesco, ou uma dúvida hamletiana).
Esses são, portanto, os pontos do artigo de Eco que serão úteis para a análise dos filmes (e da obra em geral) do diretor americano Quentin Tarantino, a saber: processo de criação oriundo de um trabalho árduo e consciente, liberdade (limitada) de interpretação e personagens que migram.
Tarantino
Quentin Tarantino[2] já foi alvo de interpretações variadas, pois apresenta uma produção cinematográfica sui generis que revolucionou a forma de abordar temas considerados “sem profundidade” pela crítica especializada, como violência e vingança de sangue.
Tarantino não aborda a violência pura e por si só, mas a mente do violento. Seus filmes são conhecidos por diálogos bastante elaborados, cronologia fragmentada e pela grande quantidade de sangue. Encontram-se neles influências do cinema oriental, filmes de faroeste, terror italiano, nouvelle vague francesa e do cinema britânico.
Pensando nas importantes teorias dos autores já citados a cerca do processo de composição literária, é possível pensar nos filmes de Tarantino como um bom exemplo do quanto a criação artística é resultado de muita transpiração (trabalho) ao invés de inspiração.
Selton Melo e Seu Jorge, em Tarantino’s mind[3]

http://www.youtube.com/watch?v=op4byt-DtsI
apresentam de forma inusitada uma possível relação entre todos os filmes de Tarantino. O personagem de Selton Melo cria uma tese de que este teria feito um só enredo e o segmentou em vários filmes, mas que esses “são detalhes que ninguém percebe”.
É certo que algumas das suposições do personagem são descabidas e mal fundadas, oriundas de uma interpretação pessoal da série de filmes de Tarantino, entretanto, nota-se que seu embasamento principal não é falso.
Assim como demonstrou Poe que a composição de “O Corvo” foi o resultado de árdua análise dos elementos que causam certos “efeitos” no leitor, ou como Eco criou, antes mesmo da escrita, um mundo paralelo para que a cena inicial que ele possuía de O nome da Rosa (um monge morte em uma biblioteca medieval), os filmes de Tarantino apresentam, como é demonstrado em Tarantino’s mind, uma lógica pensada, calculada, que causam no espectador efeitos provavelmente pensados de antemão pelo autor/diretor.
Kill Bill, Cervantes & Umberto Eco
Pode-se dizer, de forma geral, que Kill Bill (volumes 1 e 2) é uma dupla história de vingança onde a protagonista principal, Beatriz Kiddo (Uma Thurman) persegue de forma implacável um grupo de pessoas que a tentou matar. No primeiro filme, composto basicamente de cenas de luta, muitas das informações principais sobre o enredo não são explicitadas ao espectador, que só se darão conta, no segundo filme, do que moveu tamanha fúria, pois ficam finalmente claros os motivos que levam Kiddo a essa busca pela vingança.
Essa forma de construção dos filmes é bem inusitada, pois não apresenta, no primeiro momento, quais são os componentes principais da trama. Aparentemente o filme é só uma zombaria dos filmes chineses, sem maiores preocupações filosóficas, mas este é um dos efeitos que Tarantino, conscientemente, provoca no espectador.
Kiddo, assim como os personagens que ela matou, é uma assassina profissional liderada de forma quase mística por Bill (David Carradine). Nota-se um envolvimento amoroso entre Beatriz e Bill na cena do ensaio do casamento dela com outro homem, este, com pouca importância na trama. Bill, nos últimos três meses antes daquele encontro, supunha que sua assassina favorita estava morta, e ao reencontrá-la fica surpreso com o fato de ela ter se ocultado por tanto tempo e que, além do mais, encontrava-se grávida. A idéia de Beatriz era de abandonar a carreira de assassina e transformar-se em Mrs. Tommy Plimpton, uma mulher comum, com um marido e emprego comuns, em prol da filha que estava esperando.
Na parte final de Kill Bill 2, Bill disserta longamente sobre a relação que possui Kiddo com o personagens de quadrinhos: Superman. Este super-herói migra dos quadrinhos para a fala de Bill, para demonstrar que não era possível Kiddo realizar o que estava pretendendo. Superman não se torna um super-herói através de algum dispositivo (como Batman através de sua roupa), mas ele já nasceu um super-herói. Seu alterego é Clark Kent, e não o contrário. Mrs Plimpton era então, o alterego de Kiddo, e o que ela é na sua essência não pode ser mudado.
Magoado e com vontade de vingar-se por ter sido enganado, Bill promove então, uma chacina no local e depois de muito machucada, Beatriz recebe um tiro que a colocaria em coma por cinco anos.
No volume 1, o espectador apenas sabe que a protagonista acabara de despertar de um longo coma e que estava disposta a tudo para vingar-se. Todas as outras informações são reveladas no volume 2. Além disso, do primeiro volume ao segundo apresenta-se um aprofundamento psicológico nos personagens e no próprio enredo.
O processo de construção dos filmes se assemelha com o de Dom Quixote de La Mancha em aspectos considerados fundamentais na obra de Cervantes.
O fato de Kill Bill ser um pastiche dos filmes de kung fu lembra que antes, bem antes, Cervantes já tinha utilizado esse recurso quando construiu toda a sua novela como um pastiche das novelas de cavalaria. Em um primeiro momento, seu livro foi lido e compreendido como uma obra de humor, pelo tom cômico que possui (assim como Kill Bill volume 1), sem estudos que observassem os grandes temas psicológicos e filosóficos que a obra possuía[4]. Foi, portanto, encarado como comédia por seus leitores comuns.
Mais enfaticamente na segunda parte de Dom Quixote de La Mancha, Cervantes promove um aprofundamento psicológico nos personagens (que passam inclusive a perceberem-se como personagens de ficção, e sabem também que foram lidos).
De modo semelhante atua Tarantino, acrescentando diálogos que demonstram uma maior complexidade de seus personagens, no volume 2.
A fala de Bill a respeito do Superman é um bom exemplo disso.
O texto do Umberto Eco apresenta um diálogo em comum com os filmes descritos e adianta-se que o que aqui for analisado é só o começo de uma discussão que poderá ser acrescentada posteriormente com novas observações, em momento oportuno.
O que pode se chamar de ápices em se tratando dos diálogos do filme acontece na cena final, já mencionada, do segundo filmequando Bill disserta a respeito da sua grande admiração por histórias em quadrinhos, especialmente pelo personagem Superman, como pode ser visto na fala transcrita baixo.
“As you know......l'm quite keen on comic books. Especially the ones about superheroes. I find the whole mythology surrounding superheroes fascinating. Take my favorite superhero, Superman”.
Bill começa a expor suas idéias acerca dos heróis de quadrinhos, mas destaca que com o Superman o que se passa é diferente. Tanto o Homem-Aranha, quanto o Batman, são seres humanos que necessitam de algum dispositivo -como uma roupa- para que seus super-poderes sejam “ativados”; o Homem-Aranha é o alterego de Peter Parker e Batman é o alterego de Bruce Wayne. Já Superman nasceu com seus super-poderes, é praticamente onipotente (ECO 2001:275), e o seu alterego é Clark Kent. E como se caracteriza para o resto da humanidade quando não é o Superman? O próprio Bill responde:
What Kent wears - the glasses, the business suit - that's the costume. That's the costume Superman wears to blend in with us. Clark Kent is how Superman views us. And what are the characteristics of Clark Kent? He's weak......he's unsure of himself......he's a coward. Clark Kent is Superman's critique on the whole human race.
Umberto Eco também demonstra um carinho especial por quadrinhos, assim como o personagem Bill, sua preferência é marcadamente o Super-Homem, em “O mito do Superman”[5]. Nele, também demonstra que Superman mantêm profundas relações com o ser humano, mas como uma crítica a este:
“... de fato, Clark Kent personaliza, de modo bastante típico, o leitor médio torturado por complexos e desprezado pelos seus semelhantes: através de um óbvio processo de identificação, um accountant qualquer de uma cidade norte-americana qualquer, nutre secretamente a esperança de um dia, das vestes de sua atual personalidade, possa florir um super-herói capaz de resgatar anos de mediocridade”. (pg. 248).
Tal trecho demonstra claramente relações e diálogos entre Tarantino e Eco.
Além de “O mito de Superman” Eco se aproxima de Kil Bill em “Sobre algumas funções da literatura” de forma destaca em alguns pontos.
O fato de Kill Bill ser uma ficção e nele aparecer na fala de Bill o Superman, outro personagem de ficção, é possível notar o que Eco afirma sobre os personagens que migram. Bill fala de Superman como se ele também não fosse um personagem de ficção, levando a um processo de perda de referencial por parte do espectador, afinal, o que é real? Os textos estão em permanente diálogo entre si, e as barreiras entre o mundo ficcional e a realidade nem sempre são fixas.
Além disso, Bill promove uma livre interpretação dos quadrinhos de forma muito acertada, tecendo uma rede de teorias acerca do comportamento dos super-heróis, levando em consideração os fatos que as mesmas apresentam. Quando Eco afirma que: “A leitura de obras literárias nos obriga a um exercício de fidelidade e respeito na liberdade de interpretação” (pg. 12), mas leva em consideração que são possíveis muitos planos de leitura para uma mesma obra, pois, como já foi dito, esta apresentam as ambigüidades da vida, deixa claro que o que Bill interpretou acerca dos personagens de quadrinhos é válido, pois é baseado nas verdades do texto, das próprias histórias em quadrinhos.
Conclui-se que vários elementos encontrados em Kill Bill e na obra de Tarantino como um todo dialogam entre si e com teorias a cerca da literatura e das artes em geral.
Ao analisar atentamente os vários tipos de obra de arte - seja uma obra poética, um quadro, um filme, uma peça teatral – é encontrado um ponto fundamental em comum: a constante pesquisa, trabalho, dedicação e experimentos. Fatos esses que pouco tem a ver com inspiração ou uma possível genialidade do autor, ao contrário, apontam que com muito estudo e trabalho é possível a criação de obras surpreendentes.
BIBLIOGRAFIA
ECO, Umberto. “Como escrevo”. In Sobre a literatura. 2.ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.
ECO, Umberto. “O mito do Superman”. In Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 2000.
ECO, Umberto. “Sobre algumas funções da literatura”. In Sobre a literatura. 2.ed. Rio de janeiro: Record, 2003.
POE, Edgar Allan. Filosofia da composição. In: Poemas e ensaios. São Paulo:Globo, 1999.
Tarantino’s mind - http://www.youtube.com/watch?v=op4byt-DtsI disponível em 27/11/2008.
SupermanDialogue http://www.youtube.com/watch?v=PdWF7kd1tNo
Disponível em 27/11/2008.
[1] [1]. O texto de Umberto Eco em questão encontra-se na obra Sobre Literatura e intitula-se “Sobre algumas funções da literatura”.
[2] Tarantino foi roteirista e diretor de vários filmes como Cães de Aluguel (1992), Pulp Ficcion (1994), Assassinos por Natureza (1994), Kill Bill volume 1 e volume 2 (2003, 2004), e outros.
[3] Tarantino’s mind, Brasil, 2007. Diretor: Selton Melo, produtoras:300ml, Handry Man Rio.
[4] . É importante ressaltar que este trabalho, em momento algum, tenta comparar a amplitude filosófica, psicológica, social, lingüística, religiosa, histórica, etc. que Dom Quixote de La Mancha possui com os filmes de Tarantino, mas sim analisar as formas com que a estrutura dos dois se assemelha.
[5] ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. 6ed, Editora Perspectiva:São Paulo, 2001, pp239.
É certo que algumas das suposições do personagem são descabidas e mal fundadas, oriundas de uma interpretação pessoal da série de filmes de Tarantino, entretanto, nota-se que seu embasamento principal não é falso.
Assim como demonstrou Poe que a composição de “O Corvo” foi o resultado de árdua análise dos elementos que causam certos “efeitos” no leitor, ou como Eco criou, antes mesmo da escrita, um mundo paralelo para que a cena inicial que ele possuía de O nome da Rosa (um monge morte em uma biblioteca medieval), os filmes de Tarantino apresentam, como é demonstrado em Tarantino’s mind, uma lógica pensada, calculada, que causam no espectador efeitos provavelmente pensados de antemão pelo autor/diretor.
Kill Bill, Cervantes & Umberto Eco
Pode-se dizer, de forma geral, que Kill Bill (volumes 1 e 2) é uma dupla história de vingança onde a protagonista principal, Beatriz Kiddo (Uma Thurman) persegue de forma implacável um grupo de pessoas que a tentou matar. No primeiro filme, composto basicamente de cenas de luta, muitas das informações principais sobre o enredo não são explicitadas ao espectador, que só se darão conta, no segundo filme, do que moveu tamanha fúria, pois ficam finalmente claros os motivos que levam Kiddo a essa busca pela vingança.
Essa forma de construção dos filmes é bem inusitada, pois não apresenta, no primeiro momento, quais são os componentes principais da trama. Aparentemente o filme é só uma zombaria dos filmes chineses, sem maiores preocupações filosóficas, mas este é um dos efeitos que Tarantino, conscientemente, provoca no espectador.
Kiddo, assim como os personagens que ela matou, é uma assassina profissional liderada de forma quase mística por Bill (David Carradine). Nota-se um envolvimento amoroso entre Beatriz e Bill na cena do ensaio do casamento dela com outro homem, este, com pouca importância na trama. Bill, nos últimos três meses antes daquele encontro, supunha que sua assassina favorita estava morta, e ao reencontrá-la fica surpreso com o fato de ela ter se ocultado por tanto tempo e que, além do mais, encontrava-se grávida. A idéia de Beatriz era de abandonar a carreira de assassina e transformar-se em Mrs. Tommy Plimpton, uma mulher comum, com um marido e emprego comuns, em prol da filha que estava esperando.
Na parte final de Kill Bill 2, Bill disserta longamente sobre a relação que possui Kiddo com o personagens de quadrinhos: Superman. Este super-herói migra dos quadrinhos para a fala de Bill, para demonstrar que não era possível Kiddo realizar o que estava pretendendo. Superman não se torna um super-herói através de algum dispositivo (como Batman através de sua roupa), mas ele já nasceu um super-herói. Seu alterego é Clark Kent, e não o contrário. Mrs Plimpton era então, o alterego de Kiddo, e o que ela é na sua essência não pode ser mudado.
Magoado e com vontade de vingar-se por ter sido enganado, Bill promove então, uma chacina no local e depois de muito machucada, Beatriz recebe um tiro que a colocaria em coma por cinco anos.
No volume 1, o espectador apenas sabe que a protagonista acabara de despertar de um longo coma e que estava disposta a tudo para vingar-se. Todas as outras informações são reveladas no volume 2. Além disso, do primeiro volume ao segundo apresenta-se um aprofundamento psicológico nos personagens e no próprio enredo.
O processo de construção dos filmes se assemelha com o de Dom Quixote de La Mancha em aspectos considerados fundamentais na obra de Cervantes.
O fato de Kill Bill ser um pastiche dos filmes de kung fu lembra que antes, bem antes, Cervantes já tinha utilizado esse recurso quando construiu toda a sua novela como um pastiche das novelas de cavalaria. Em um primeiro momento, seu livro foi lido e compreendido como uma obra de humor, pelo tom cômico que possui (assim como Kill Bill volume 1), sem estudos que observassem os grandes temas psicológicos e filosóficos que a obra possuía[4]. Foi, portanto, encarado como comédia por seus leitores comuns.
Mais enfaticamente na segunda parte de Dom Quixote de La Mancha, Cervantes promove um aprofundamento psicológico nos personagens (que passam inclusive a perceberem-se como personagens de ficção, e sabem também que foram lidos).
De modo semelhante atua Tarantino, acrescentando diálogos que demonstram uma maior complexidade de seus personagens, no volume 2.
A fala de Bill a respeito do Superman é um bom exemplo disso.
O texto do Umberto Eco apresenta um diálogo em comum com os filmes descritos e adianta-se que o que aqui for analisado é só o começo de uma discussão que poderá ser acrescentada posteriormente com novas observações, em momento oportuno.
O que pode se chamar de ápices em se tratando dos diálogos do filme acontece na cena final, já mencionada, do segundo filmequando Bill disserta a respeito da sua grande admiração por histórias em quadrinhos, especialmente pelo personagem Superman, como pode ser visto na fala transcrita baixo.
“As you know......l'm quite keen on comic books. Especially the ones about superheroes. I find the whole mythology surrounding superheroes fascinating. Take my favorite superhero, Superman”.
Bill começa a expor suas idéias acerca dos heróis de quadrinhos, mas destaca que com o Superman o que se passa é diferente. Tanto o Homem-Aranha, quanto o Batman, são seres humanos que necessitam de algum dispositivo -como uma roupa- para que seus super-poderes sejam “ativados”; o Homem-Aranha é o alterego de Peter Parker e Batman é o alterego de Bruce Wayne. Já Superman nasceu com seus super-poderes, é praticamente onipotente (ECO 2001:275), e o seu alterego é Clark Kent. E como se caracteriza para o resto da humanidade quando não é o Superman? O próprio Bill responde:
What Kent wears - the glasses, the business suit - that's the costume. That's the costume Superman wears to blend in with us. Clark Kent is how Superman views us. And what are the characteristics of Clark Kent? He's weak......he's unsure of himself......he's a coward. Clark Kent is Superman's critique on the whole human race.
Umberto Eco também demonstra um carinho especial por quadrinhos, assim como o personagem Bill, sua preferência é marcadamente o Super-Homem, em “O mito do Superman”[5]. Nele, também demonstra que Superman mantêm profundas relações com o ser humano, mas como uma crítica a este:
“... de fato, Clark Kent personaliza, de modo bastante típico, o leitor médio torturado por complexos e desprezado pelos seus semelhantes: através de um óbvio processo de identificação, um accountant qualquer de uma cidade norte-americana qualquer, nutre secretamente a esperança de um dia, das vestes de sua atual personalidade, possa florir um super-herói capaz de resgatar anos de mediocridade”. (pg. 248).
Tal trecho demonstra claramente relações e diálogos entre Tarantino e Eco.
Além de “O mito de Superman” Eco se aproxima de Kil Bill em “Sobre algumas funções da literatura” de forma destaca em alguns pontos.
O fato de Kill Bill ser uma ficção e nele aparecer na fala de Bill o Superman, outro personagem de ficção, é possível notar o que Eco afirma sobre os personagens que migram. Bill fala de Superman como se ele também não fosse um personagem de ficção, levando a um processo de perda de referencial por parte do espectador, afinal, o que é real? Os textos estão em permanente diálogo entre si, e as barreiras entre o mundo ficcional e a realidade nem sempre são fixas.
Além disso, Bill promove uma livre interpretação dos quadrinhos de forma muito acertada, tecendo uma rede de teorias acerca do comportamento dos super-heróis, levando em consideração os fatos que as mesmas apresentam. Quando Eco afirma que: “A leitura de obras literárias nos obriga a um exercício de fidelidade e respeito na liberdade de interpretação” (pg. 12), mas leva em consideração que são possíveis muitos planos de leitura para uma mesma obra, pois, como já foi dito, esta apresentam as ambigüidades da vida, deixa claro que o que Bill interpretou acerca dos personagens de quadrinhos é válido, pois é baseado nas verdades do texto, das próprias histórias em quadrinhos.
Conclui-se que vários elementos encontrados em Kill Bill e na obra de Tarantino como um todo dialogam entre si e com teorias a cerca da literatura e das artes em geral.
Ao analisar atentamente os vários tipos de obra de arte - seja uma obra poética, um quadro, um filme, uma peça teatral – é encontrado um ponto fundamental em comum: a constante pesquisa, trabalho, dedicação e experimentos. Fatos esses que pouco tem a ver com inspiração ou uma possível genialidade do autor, ao contrário, apontam que com muito estudo e trabalho é possível a criação de obras surpreendentes.
BIBLIOGRAFIA
ECO, Umberto. “Como escrevo”. In Sobre a literatura. 2.ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.
ECO, Umberto. “O mito do Superman”. In Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 2000.
ECO, Umberto. “Sobre algumas funções da literatura”. In Sobre a literatura. 2.ed. Rio de janeiro: Record, 2003.
POE, Edgar Allan. Filosofia da composição. In: Poemas e ensaios. São Paulo:Globo, 1999.
Tarantino’s mind - http://www.youtube.com/watch?v=op4byt-DtsI disponível em 27/11/2008.
SupermanDialogue http://www.youtube.com/watch?v=PdWF7kd1tNo
Disponível em 27/11/2008.
[1] [1]. O texto de Umberto Eco em questão encontra-se na obra Sobre Literatura e intitula-se “Sobre algumas funções da literatura”.
[2] Tarantino foi roteirista e diretor de vários filmes como Cães de Aluguel (1992), Pulp Ficcion (1994), Assassinos por Natureza (1994), Kill Bill volume 1 e volume 2 (2003, 2004), e outros.
[3] Tarantino’s mind, Brasil, 2007. Diretor: Selton Melo, produtoras:300ml, Handry Man Rio.
[4] . É importante ressaltar que este trabalho, em momento algum, tenta comparar a amplitude filosófica, psicológica, social, lingüística, religiosa, histórica, etc. que Dom Quixote de La Mancha possui com os filmes de Tarantino, mas sim analisar as formas com que a estrutura dos dois se assemelha.
[5] ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. 6ed, Editora Perspectiva:São Paulo, 2001, pp239.

